Relógio

 Colecionar relógios e estar sempre atrasada! A pessoa que se tornou seu próprio paradoxo.

O que é o tempo, afinal? Tempo de quem? Que horas são enquanto você lê esse texto? Isso realmente importa? Estaria eu atrasada em escrever aqui ou adiantada, já que você nem sabia?

Assim, ela andava pela vida, sempre com pensamentos que a obrigavam a chegar em algum lugar, alguma conclusão que estava ali, à espreita. Ah! era isso que estava acontecendo com imensa frequência, as coisas ficavam ali, sempre sorrateiras e sem dúvidas "à espreita".

Há muito andava angustiada, sentia estar sendo vigiada pela vizinha. Parecia muito claro para ela, o quanto a vizinha lhe tinha aversão, ao mesmo tempo, essa mesma vizinha, vivia a espreitá-la, dia após dia e depois agia como se nada fosse, passando por ela com o esnobismo costumeiro dos sem classe. Porém, Irene sabia das suas más intenções e pra fingir estar alheia, ela consultava o relógio.

Como toda boa angústia, essa também não estava sozinha e muitas coisas assombravam a mente de Irene. Por exemplo, Irene perdeu o emprego, ela atribuiu essa perda à inúmeras variáveis, mas sempre uma, era a que mais martelava. Foi aí que ela começou a desenvolver um sistema interno de escuta e avaliação de situações. Para ela, parecia que tudo que era seu, automaticamente virava de domínio público, fazendo com que as pessoas achassem por bem, invadir lhe os espaços e se comportar como se ali ela não estivesse. Isso, ali mesmo, dentro do seu mundo. Nessas de perder o emprego, Irene entrou novamente num paradoxo. O de liberdade e o de luto. "Enfim livre!!! Mas, por que eu?" Um alívio estar longe dos percalços do trabalho, um alívio checar o relógio sabendo que seu tempo não está contado, um desespero não ter os percalços do trabalho, como checar o relógio e ter todo o tempo do mundo? É muito.

Irene também se exasperava quando alguém, ignorando-a, voltava a atenção para seu companheiro. Ela pensava: e eu? oi? você está sendo inconveniente!                                                                          Novamente, o sentimento de revirar o estômago e engolir o amargo! Novamente, Irene decidia não ser ela a desagradável, chorava escondida. Em público ela olhava com atenção para o relógio.

Absorta em seus pensamentos em uma viagem de avião, Irene olhou pela janela, acima das nuvens, ela começou a imaginar um urso polar vindo na direção de uma foca que estava distraída logo ali. Ela riu, pois foi nesse momento que pensou como as realidades se confundem. E aquela paisagem poderia tanto ser o Polo Norte, quanto o que era de fato; nuvens! Nossos olhos nos pregam peças, todas as nossas certezas serão contestadas, nada é garantido ou absoluto. Temos muitos caminhos à percorrer. Alguns podem ser reais. Irene afundou no seu assento e enquanto fitava seu relógio sem nada ver, um clichê dançou na sua frente e num sussurro, o clichê lhe pareceu a cura! Imediatamente, pegou seu moleskine e escreveu "O viver feliz vai depender do que você vê além do que se apresenta aos olhos"

E assim, na chegada, Irene foi direto ao teatro, onde seu companheiro a esperava. E esperava somente a ela, não havia mais ninguém. Na segunda-feira, ela dormiu até tarde e não tinha nada que a impedisse. O cachorro xexelento da vizinha lhe abanou o rabo, e essa é a manifestação de apreço que ela precisava, vinda daquela casa. 

A mulher colocou um vestido, digno de um dia maravilhoso de sol. Apanhou os óculos escuros, calçou o melhor tênis e saiu, em busca do elixir da vida. Enquanto esperava para atravessar a rua, contemplava o relógio. Veio um senhor e perguntou as horas, em meio a uma gargalhada Irene respondeu: não sei, meu relógio parou!

Enfim livre, enfim redimida.

Essa é a história de quem nunca tira o relógio do pulso, e estar de relógio não significa absolutamente nada.


(Pode ser que a Irene volte pra te contar mais sobre alguma coisa ou como fazem nos filmes da Marvel

Irene will return...)



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