Cadê a Pessoa?
Alguém achou uma carta, uma carta que foi escrita por uma
pessoa que queria ir, mas preferia ficar!
E é aqui que começa a história. Vamos chamar de Pessoa, para
preservar a identidade da criatura. Precisamos respeitar os mortos! Entretanto,
nós nem sabemos se a Pessoa morreu de fato, tô assumindo a culpa por estar
julgando. Julgo baseado no conteúdo da tal carta que foi encontrada, intacta,
numa caixa postal. Quem é que usa caixa postal em pleno século XXI? enfim, já
julguei demais. O conteúdo da carta, eu seeeei!
Não sei, para mim era uma carta de despedida, mas não
acredito que seja uma carta de um suicida. Tem poesia, tem metáforas, tem
sentimento! É como se a carta estivesse viva, ali bem na frente do transeunte
que a encontrou.
A carta tenta explicar algo complexo para o destinatário
dela. A Pessoa começa com a cidade e data e vai logo para o que interessa!
Jonas, (esse é o destinatário e nem queremos preservar a identidade dele).
Eu vou tentar te contar o conteúdo da carta, como me foi
passado. Ora senão essa carta está virando um telefone sem fio de primeira!
Minha mãe sempre me disse que eu tenho uma memória de elefante, serei fiel ao
que me foi dito! Prometo!
Pindamonhangaba, 16 de fevereiro de 2023.
Jonas,
Te escrevo para te contar que estou para partir, enquanto
escrevo, não fui à lugar algum, mas logo irei. E como estou indo, não posso te
deixar sem respostas, notícias, coisas. Deixo-lhe tudo que tenho, desde as
coisas mais banais até as mais valiosas. Deixei-te minha aliança, pois sei que
vale um tanto. Vou sem nada, só a roupa do corpo e meu tênis favorito, trouxe
também um livro, para quem sabe, me identificarem de algum jeito. Saiba, meu
amor, que nunca quis ir, se vou é porque me deixaste partir, aos poucos, como
areia seca que escapa por entre os dedos, como uma nuvem em dia com
vento.
Por muito tempo soubeste, que eu não era única dentro de um
corpo. Eu era 3! Aquela que você amava, aquela que se esforçava e a que você
não sabia lidar. Por vezes, a que você amava, permanecia tempo suficiente para
que você fosse feliz, deleitando-se na calmaria e estabilidade, que você não
sabia, mas eu sempre temia, pois nunca sabia o episódio de amanhã, e eu nunca
queria que acabasse. No entanto, chegava a que você não sabia lidar. E não
sabia justamente por não estar preparado para essa chegada. Eu também não
estava meu amor, nunca estive. E vinha numa onda que nos cobria, você saía da
onda e me olhava dentro dela, sem nada poder fazer. Se irritava, eu chorava, se
clamava por aquela que amava, eu chorava, se não entendia como num dia era
perfeito e no outro não era mais, eu chorava. A angústia tomava conta de mim e
uma ansiedade absurda, além do medo constante de que você finalmente
desistisse. Nessa eu tentava fazer as coisas darem certo, o esforço me esgotava
e eu caía, pior do que estava antes. Eu li uma frase na internet que dizia
assim "amar alguém assim é aprender a ser abrigo". Jonas, o abrigo me
foi negado, a presença não me foi oferecida, a dor não foi consertada e nem
acolhida, foi suportada, dia após dia. Vi nos seus olhos a exaustão. Então
decidi partir.
Você sempre me incentivava, isso não posso negar, a fazer
mais exercícios, a tomar os remédios, muitos remédios, a ter uma boa
alimentação e um sono regular. Nessa, chegava a estável, assim, como quem não
quer nada! Ela substitui a que você amava, e a que você não sabia lidar. Essa,
era legal, nem tão legal como seu amor, mas era melhor que nada, melhor que
anterior. Foram décadas assim, por isso, resolvi ir embora.
Eu sei que você não vai me entender, aposto que já me odeia,
por que eu fui sem avisar, desestabilizei a ordem das coisas! Porém, deixei a
louça lavada, a roupa dobrada, arrumei a cama bem esticadinha, paguei minhas
contas e saí.
Eu não tenho certeza qual das 3 te escreve agora, se é quem
você amava, quem você não entendia, a legal. Mas saiba que as 3 sempre te
amaram com veemência, com esmero, com ordem.
Eu vou, Jonas. Mas parte de mim, fica com você.
das sempre suas...
Gente, geeeente! Muito provavelmente eu não tenha lembrado
de detalhes importantíssimos para o Jonas, mas os detalhes para nós aqui que
estamos lendo, estão suficientes. Eu nem acredito que me deparei com essa
narrativa, aquelas coisas que o destino reserva para nós. Fiquei pensativo por
dias a fio, até ter coragem de expor aqui pra vocês a minha ilustre descoberta!
Por incrível que pareça, me vieram contar isso em uma
sessão! Eu sou psicólogo e no fim da exposição do conteúdo da carta, eu já
sabia, entretanto não disse, guardei pra falar aqui, pois sei que vocês sabem
guardar segredos, né? Eu, ali na minha poltrona sabia que a esposa do Jonas,
era ou é bipolar.
A certeza que eu tenho é que ela sempre quis mesmo partir,
sumir, correr, gritar, mas também queria ficar, amar, sorrir, dançar,
conversar. Ela foi sem querer ir, foi achando que assim o Jonas vai ser mais
feliz.
Eu guardei o melhor para o final, a fofoca mais especial
disso tudo é que o tal do Jonas respondeu a carta e deixou na mesma caixa
postal! E sabem o que ele disse?
Eu também não sei, na próxima sessão. Alguém me contará!
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