Chinelos
Parece que olhar pra esses chinelos e lembrar do que eles testemunharam "é tudo o que tenho no momento". Pensou a pessoa sentada em um banco de delegacia. A pessoa fitava o chinelo em um ato de submissão, mostrando ao mundo que a cercava que era inofensivo, por vezes até invisível. Olhando para baixo, notou nos chinelos surrados a marca de uma vida, carregada de intempéries, dias de fomes e sedes, vontades reprimidas, sorrisos ocultos. Mas isso não era e nem poderia ser o que resumia aquela pessoa! Ninguém é só desgraça, nem somente bem ou somente mal. Que graça teria tudo se fosse assim? O indivíduo sentado de chinelos sabia que não teria graça nenhuma viver só do excesso bom e negligenciar o mal e vice versa. Talvez, aquele momento ali, sentada, tenha sido o maior tempo de reflexão que aquela pessoa já tivera, fora ali que pensou profundamente no que viveu até quando se sentou no banco. Lembrou da mãe sorrindo embalando cocadas às 5 da manhã. Lembrou do pai... que não tinh...