Postagens

Mostrando postagens de julho, 2023

Chinelos

 Parece que olhar pra esses chinelos e lembrar do que eles testemunharam "é tudo o que tenho no momento". Pensou a pessoa sentada em um banco de delegacia. A pessoa fitava o chinelo em um ato de submissão, mostrando ao mundo que a cercava que era inofensivo, por vezes até invisível. Olhando para baixo, notou nos chinelos surrados a marca de uma vida, carregada de intempéries, dias de fomes e sedes, vontades reprimidas, sorrisos ocultos. Mas isso não era e nem poderia ser o que resumia aquela pessoa! Ninguém é só desgraça, nem somente bem ou somente mal. Que graça teria tudo se fosse assim? O indivíduo sentado de chinelos sabia que não teria graça nenhuma viver só do excesso bom e negligenciar o mal e vice versa. Talvez, aquele momento ali, sentada, tenha sido o maior tempo de reflexão que aquela pessoa já tivera, fora ali que pensou profundamente no que viveu até quando se sentou no banco. Lembrou da mãe sorrindo embalando cocadas às 5 da manhã. Lembrou do pai... que não tinh...

A dor e a janela

  A Dor entrou pela janela, veio flutuando e deslizou pelas cortinas avançando devagar, espalhou-se pelo quarto e sua densa névoa era notada pelos habitantes enquanto sentiam aquela presença indesejada. A Dor não ficou só ali, ela se espalhou pelos ambientes, saindo pela porta, alcançando o corredor, decidiu descer as escadas. Desceu languidamente, como se tentasse seduzir os que ainda a observavam. Em um instante, ela tomava toda a sala, a cozinha, os banheiros e quartos, ela dominava tudo e ninguém conseguia tirar ela dali. Mas acho que ninguém tentou retirá-la dali, deixaram ela se apossar dos ambientes e corpos e pensamentos e de repente, tudo era dor, tudo que os cercava era dor. Veio a Morte dar uma olhada, olhou e olhou e sentiu inveja da Dor, pois nunca fora tão efetiva a ponto de dominar tanta gente naquela mesma casa. No pé da escada, discutiram, a Dor e a Morte bateram boca, os dedos na cara, os perdigotos voando. Os ânimos estavam exaltados, a ausência de luz naquele lu...

Descarte Consciente

  Era quase fim de expediente quando o prefeito da cidade bateu o martelo! Pronto!, disse ele em voz alta enquanto apertava a mão dos outros homens que faziam parte do comitê.  Fora uma brilhante ideia, aquela que o José teve. Ele vai revolucionar o modo como vemos o descarte do lixo. E ele lá todo orgulhoso na sua humildade, nem deu discurso nem nada, apenas se comprometeu em botar o projeto em prática o mais rápido possível. O prefeito, que de bobo só tinha a cara, já pensava em usar o novo programa de lixo na campanha pra reeleição, por isso tinha pressa e foi logo agilizando os muitos pontos de coleta pela cidade. Nesse novo formato, a população trará o seu lixo até o ponto de coleta e ali será feita a triagem, entre os recicláveis e os que irão para o aterro. Tendo também a opção do dono do lixo, decidir o que gostaria que fosse feito. Os pontos de coleta eram o que há de mais moderno, com caçambas coloridas e espaçosas, com as marcas de cada tipo de reciclagem possível ...

Narciso nem sempre é flor...

  E quando o espelho se torna tão real, que ultrapassa a fria camada de imagem refletida e se torna tangível? Foi o que aconteceu, numa tarde qualquer. Ninguém nem sabia exatamente quando, foi bem por isso que ninguém se deu ao trabalho de tentar explicar o inexplicável, ou talvez tão óbvio que fizeram de conta que era nada. Entretanto, tudo que é nada, um dia se torna tudo. Tudo que não era, desperta a curiosidade de ser, e em um dia, os olhos que até então só eram as janelas da alma, viram o orgão mais valioso, mais, mais... como se diz mesmo? Ah sim! O orgão mais valioso e tangível! E é agora que a história começa. Joaquin andava pela vida como a maioria! Muito bem obrigado! Fazia uso de todos os privilégios que a existência lhe proporcionava. Era realizado, bem casado, bem empregado, quando postava viralizava, todo ano era seu ano, todo o mundo (ou quase) já tinha visitado. Pra quê mais? Perguntavam-se os recalcados. Pra quê mais? Perguntavam-se os que o queriam bem. Pra quê ma...