A dor e a janela

 A Dor entrou pela janela, veio flutuando e deslizou pelas cortinas avançando devagar, espalhou-se pelo quarto e sua densa névoa era notada pelos habitantes enquanto sentiam aquela presença indesejada.

A Dor não ficou só ali, ela se espalhou pelos ambientes, saindo pela porta, alcançando o corredor, decidiu descer as escadas. Desceu languidamente, como se tentasse seduzir os que ainda a observavam. Em um instante, ela tomava toda a sala, a cozinha, os banheiros e quartos, ela dominava tudo e ninguém conseguia tirar ela dali. Mas acho que ninguém tentou retirá-la dali, deixaram ela se apossar dos ambientes e corpos e pensamentos e de repente, tudo era dor, tudo que os cercava era dor. Veio a Morte dar uma olhada, olhou e olhou e sentiu inveja da Dor, pois nunca fora tão efetiva a ponto de dominar tanta gente naquela mesma casa. No pé da escada, discutiram, a Dor e a Morte bateram boca, os dedos na cara, os perdigotos voando. Os ânimos estavam exaltados, a ausência de luz naquele lugar era tanta, que cenas como essa, não impressionavam ninguém.
A Morte partiu, viu que apesar do domínio da Dor, ali nada conseguiria. Mas a Dor ficou, já tinha todos ali envolvidos na sua realidade.
Num instante de reflexão, a Dor não conseguiu se alegrar. Sentiu que a alegria era uma reação muito humana e não lhe cabia. Mesmo assim, ela sabia que tinha atingido o seu objetivo. Como estava ali, instalada de forma a dominar tudo e todos, a Dor se colocou a pensar mais um pouco! Pensou que os humanos quando chegam ao estado da alegria, eles buscam mais, não se contentando com aquele estado de cor, luz e som. Uma alegria para um ser humano, nunca é suficiente, nem duas, nem mil! Eles acreditam que se colecionarem alegrias, chegarão a felicidade. Mal sabem eles, riu a Dor, mal sabem eles que a felicidade não existe de fato, esse nome foi usado pelo Criador de todas as coisas, apenas para ilustrar um conjunto de humanos e suas alegrias. Nesse caso o que conta mesmo é a alegria e saber usar essas alegrias que é o ponto crítico. Se cada vez que eles atingem um estado de alegria, eles restringem à apenas alguns dias ou horas, e logo saem em busca de mais, sem ter aproveitado quase nada, os humanos matam o estado alegre!
E é aí que eu entro! Na insatisfação e na ingratidão diante de suas alegrias, abre se a janela para a Dor entrar e dominar. 
Depois de tanto pensar, o coração da Dor se encheu de compaixão pelos humanos e passou o dia a observá-los. A Dor sacudiu a cabeça e achou-se triste, pela primeira vez, percebeu que os que pensam são mais propensos a sentimentos profundos como aquele que estava sentindo. A Dor buscou ajuda e voltou horas depois com um gato debaixo do braço. Soltou o bichinho preto e branco na sala, os humanos vieram e olharam estupefatos! O gato ronronou, miou e correu atrás de uma mosca, agitando as patinhas no ar. Um dos humanos sorriu, os outros vendo que ele havia sorrido, ensaiaram sorrir também, até que irromperam em um riso gostoso, colorido, cheio de som, cheio de alegria. A Dor também sorriu timidamente e se foi, saiu pela janela, não sem antes cumprimentar uma de suas irmãs que chegava,
- Oi Plenitude!!! 
- Oi Dor. - replicou Plenitude sorrindo abertamente e acenando.

A Dor sempre vai ser momentânea e ás vezes é ela que te salva.

Comentários

Postar um comentário

Se você gostou, escreva seu comentário!
Mas se você não gostou, não precisa falar nada!

Postagens mais visitadas deste blog

Relógio

Cadê a Pessoa?

Como assim?