Narciso nem sempre é flor...
E quando o espelho se torna tão real, que ultrapassa a fria camada de imagem refletida e se torna tangível? Foi o que aconteceu, numa tarde qualquer. Ninguém nem sabia exatamente quando, foi bem por isso que ninguém se deu ao trabalho de tentar explicar o inexplicável, ou talvez tão óbvio que fizeram de conta que era nada. Entretanto, tudo que é nada, um dia se torna tudo. Tudo que não era, desperta a curiosidade de ser, e em um dia, os olhos que até então só eram as janelas da alma, viram o orgão mais valioso, mais, mais... como se diz mesmo? Ah sim! O orgão mais valioso e tangível! E é agora que a história começa.
Joaquin andava pela vida como a maioria! Muito bem obrigado! Fazia uso de todos os privilégios que a existência lhe proporcionava. Era realizado, bem casado, bem empregado, quando postava viralizava, todo ano era seu ano, todo o mundo (ou quase) já tinha visitado. Pra quê mais? Perguntavam-se os recalcados. Pra quê mais? Perguntavam-se os que o queriam bem. Pra quê mais? Ele mesmo se gabava e se perguntava e se respondia e sabia que a resposta era sempre a mesma! Não precisa mais, Joaquin.
Foi quando na distração da vida cotidiana, Joaquin se deparou com algo estranho. Não entendeu de pronto, ficou fazendo rodeios, não tinha certeza sobre o que era, e na dúvida, Joaquin sempre deixava as novidades num canto escuro da mente. Não me entendam mal, nosso Quin jamais deixaria no lado escuro, pois esse há quem duvide e acredite, que ele nem tem (mas tem sim, esse personagem não é perfeito). Digamos que o que não tinha certeza, ele colocava "atrás da porta" da mente. Mas não era ali que a "coisa" queria ficar não, e de tanto girar a maçaneta da porta aberta, de repente foi aceita, e meio tímida, meio audaz, foi entrando. Não irrompeu porta adentro, todavia entrou.
Ah pronto! Todos podem gritar nesse exato momento. Não achem que little Joca achou bom todo aquele rebuliço na sua mente, não, não! De modo algum. Ele se sentiu incomodado e curioso e como quem abre a portinhola de uma gaiola e deixa o passarinho voar sabe-se lá pra onde, quando ele abriu a portinhola, a "coisa" se esgueirou para dentro, com certa habilidade, nem parecia que pra ela, também era novidade. E que grandes novidades os ventos que o Scorpions cantavam, trariam.
AAAAAh gritou, gritaram, gritaste haha o que é a vida senão uma enorme onomatopeia e uma armadilha. Uma armadilha onomatopéica, será? Pode ser que sim. O que não podemos esquecer é que a experiência era inédita.
De um lado, Joaquin se debatia com sua própria recusa e depois a aceitação súbita de seu destino. Do outro lado, a "coisa" percebendo o caos, queria voltar para o canto escuro, atrás da porta. Não dava mais, tarde demais para ambos. Os reflexos aumentavam a cada dia, começaram a ser muito frequentes, até tomar a proporção do diário e assim, pouco a pouco, a imagem saía do espelho. Quanto mais Joca fitava o espelho, mais próximo ficava do que estava por vir. Já dizem por aí que "Narciso achou feio o que não era espelho" e exatamente nessa afirmação, Quin se perdeu! Ele, relutante, admitiu uma paixão! (é nessa hora que vocês tiram as crianças da sala)
Ao admitir sua paixão, nosso amigo sucumbiu ao mais carnal e doce prazer! Joaquin estava irremediavelmente apaixonado! Ele se apaixonou por tudo, por cada coincidência, por cada semelhança, por cada palavra, e o seu olhar era capaz de dizer coisas que palavras não descrevem. Joca, oh Joca! Será que não enxergas, meu caro? Apaixonaste por si mesmo! Ou o que nós, os meros mortais, diferentes de tu, Joaquin, chamamos de "seu reflexo tangível".
Nenhuma saga termina quando entendemos o enredo, é somente o início. Porém, ninguém consegue arriscar o futuro, tentando descrever a experiência de Joaquin, espetacular demais pra ser anunciada com começo meio e fim. Afinal, não é todo dia que se consegue achar a si mesmo, retirando-se do espelho e gozando a mais singela das relações.
E enquanto você lê, eu penso que Sócrates sabia que alguns de nós passaria por esse momento e lançou a provocação: conhece te a ti mesmo...
O motivo principal de Joaquin poder viver tamanho disparate, a que chamamos de paixão, é o fato de ser capaz de conhecer-se, assim a sua imagem pode ser quem era e nosso menino revelou-se o mais perfeito de todos os narcisos daquele jardim chamado "vida".
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