Chinelos
Parece que olhar pra esses chinelos e lembrar do que eles testemunharam "é tudo o que tenho no momento". Pensou a pessoa sentada em um banco de delegacia.
A pessoa fitava o chinelo em um ato de submissão, mostrando ao mundo que a cercava que era inofensivo, por vezes até invisível. Olhando para baixo, notou nos chinelos surrados a marca de uma vida, carregada de intempéries, dias de fomes e sedes, vontades reprimidas, sorrisos ocultos. Mas isso não era e nem poderia ser o que resumia aquela pessoa! Ninguém é só desgraça, nem somente bem ou somente mal. Que graça teria tudo se fosse assim? O indivíduo sentado de chinelos sabia que não teria graça nenhuma viver só do excesso bom e negligenciar o mal e vice versa.Talvez, aquele momento ali, sentada, tenha sido o maior tempo de reflexão que aquela pessoa já tivera, fora ali que pensou profundamente no que viveu até quando se sentou no banco. Lembrou da mãe sorrindo embalando cocadas às 5 da manhã. Lembrou do pai... que não tinha do que lembrar, pois nunca estivera lá pra ser lembrado. Lembrou da avó fumando e dando conselho pra mãe. Também tinha na mente a lembrança da chegada de seus irmãos e irmãs, um a um, em breves períodos de tempo e que assim como a pessoa, não conseguiam olhar para os chinelos e lembrar do pai. Pai que o avô fez as vezes para todos eles, que empinou pipa, levou ao açougue no sábado, que lambeu o cabelo com o pente do bolso antes de entrarem na missa. A pessoa se questionava enquanto ali esperando, se alguém no país era como ela. Se ela em toda a sua desigualdade se igualava a alguém. A frase da mãe e da avó de que "você não é todo mundo" nunca lhe pareceu tão ofensiva. Que mal tinha ser igual às pessoas que via na praia? Ou aos apressados que atravessavam a rua quando encontravam com ela? A pessoa queria ser igual! Mas não sabia como! Nunca ninguém lhe explicou como chegar ao topo de um lindo edifício e morar lá. Sabia pouco de tudo e muito de nada. No fim das contas, nem sabia o motivo de estar sentada naquele banco fitando os chinelos surrados, herdados de um tio que foi pro Ceará trabalhar em obra.
Obra de quem? A avó disse que era do governo, a mãe disse que era do doutor Beltrano, os irmãos nem sabiam o que era obra.
A única certeza que a pessoa tinha quando saiu de casa naquele dia era que do jeito que as coisas estavam na comunidade onde morava, voltar pra casa era milagre e que tinha que esconder sua cor em um moletom preto e capuz. Percebia ao ouvir as conversas de quem a tinha trazido até ali, que deveria ter escolhido melhor a cor do moletom, pois nem desconfiava que só os chinelos voltariam pra casa no fim da tarde, justamente pela cor do "moletom". Supôs imediatamente que o problema era a blusa ser preta, o dotô da sala ao lado gritou muitas vezes que tinha que acabar de vez com aquela ...... preta. A pessoa sorrindo tristemente, cansada e com fome, preferiu achar que falavam da vestimenta.
Oi! Fernanda, gostei muito do conto! Parabéns 👏🏻👏🏻
ResponderExcluirObrigada ;)
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