Pode- se dizer, assim meio que não querendo dizer, que o dia de hoje vem a ser o último de trinta e poucos. Há muito venho alimentando a ideia da despedida, não sabia se saía com festa ou se saía com choro, mas é chegada a hora e preciso partir. Apesar de estar resoluto, teimo em deixar tudo certo, nada por fazer. Não gosto de desorganizações, tão pouco de delegar minhas tarefas. Coisas minhas, coisas minhas e eu mesmo as faço! Por conta disso, passei no banco e saquei todo dinheiro que tinha e deixei na primeira gaveta da cozinha, junto com as facas, pois ouvi dizer que dinheiro com os garfos é mau agouro, risco de morte! Na volta pra casa, passei na lotérica, meu telefone, tv a cabo, água e luz estão pagos! O condomínio passei por debaixo da porta de dona Mariazinha, sem erro, dinheiro contado. Enviei todos os relatórios para o chefe, respondi todos os meus e-mails e mensagens, anunciei no facebook minha ausência, não expliquei pra ninguém. isso é coisa minha, há tempos eu venho organizando a partida, mas ainda não sei se vou com festa...
Comprei dois litros de coca, pois os seis mil e quatrocentos comprimidos que irei ingerir, irão se tornar penosos lá pelas tantas, então, se ainda tiver que beber água durante o processo, irei dessa para uma pior, pois nunca gostei de tomar água.
Conheci tanta gente nessa minha vida, mas sei que poucos sabem que eu não gosto de tomar água! Não sou muito de particularidades, de "venha cá, quero lhe contar". Não sou disso, prefiro saber ao invés de dizer, sou curioso, sempre fui e abro bem os ouvidos quando escuto as introduções que dão por aí os que gostam de contar o que ninguém perguntou! Estranho pensar na vida que segue, seguirá sem mim. O que será da vida sem mim afinal? Os pássaros obviamente continuarão a cantar, os ônibus ainda vão passar lotados, não vai ser minha ausência que melhorará o transporte público. A política ainda estará a pleno vapor amanhã, e os partidários que agora se confundem com nomes de comidas calóricas como coxinhas e mortadelas, estarão batendo boca em alguma praça. Bandeiras continuarão lá no alto, nada disso de meio mastro. Amanhã os bordéis estarão lotados, sem bandeira de luto ou faixa preta no braço, o jogo de futebol terá um campeão, o galo estará se esguelando a partir das quatro, minha mulher resmungará qualquer coisa quando se mexer na cama espaçosa, o frio baterá na janela, a chuva cairá na plantação, a vida continuará sem mim! Tudo isso me fez parecer ainda mais insignificante e triste, pra quê que eu continuo aqui, olhando esse papel, escrevendo tudo isso? Quem vai ler? Ninguém lê nada do morto, só o atestado de óbito na mão da viúva na agência do seguro de vida.
Bem, vamos lá, setenta e cinco comprimidos na primeira leva. Não, não, 20, isso 20. mastigo ou não mastigo? Se eu mastigar morrerei com um gosto amargo na boca! Melhor não mastigar! Engolirei na coragem.... lá vai... três goles de coca. Foi! 20. Ainda tenho 4 horas até minha esposa chegar, vou até a janela antes de tomar os outros, terei meu último pôr do sol! Acho que vou ouvir uma música! Vinil, pra dar aquela nostalgia! Ai ai quantas coisas vivi no tempo dessa música! Vou me sentar na minha poltrona preferida e tomar todo esse copo de coca cola, já já continuo o processo.
Comecei a sentir muito sono, muito sono mesmo, terei de largar o papel, mas que infortúnio! Minha carta ficará pela metade e eu ainda nem contei a razão de meu suicídio!!! Desculpe, desculpe, vou dormir o sono eterno adeus, adeus adsssss.
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Segunda
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Terça
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Quarta
- Felício? Felício? Oh Felício, meu amor, você acordou!!!
- Oras se o anjo da morte não é a cara de minha esposa, eu sabia!!!
- Que anjo da morte, do que está falando Felício? Sou eu mesma, sua amada Belinha!!
- Belinha? mas, mas eu não morri?
- Não!
AINDA FALTAM MAIS 6380 COMPRIMIDOS E UM LITRO E MEIO DE COCA COLA....
(Conto escrito em 2016)
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