Duas irmãs

 


Eram duas irmãs! Uma veio para compartilhar o que era da Outra.

Até aquela linda cama com dossel, o quarto com cortinas pesadas do outro lado do longo corredor, as escadarias geladas e os sons advindos das propriedades próximas. Elas compartilhavam o pai e a mãe, tinham a mesma casa, os mesmos brinquedos e geralmente gostavam das mesmas coisas. O que era muito engraçado! A bolinha preferida de Uma, acabava sendo a da Outra. Não eram gêmeas, mas eram idênticas! As cores, os formatos, os narizes! Mas não a personalidade! Isso nunca. Uma foi calma, apegada com a mãe, sempre muito limpa e ordeira, curiosidade na medida segura. Outra sempre agitada, desordeira e a curiosidade flertava com o perigo, com um certo apego com todos e simpatia que a irmã não tinha.

Duas irmãs, morando nos mesmos corações e tetos. Uma gostava de esperar a mãe na janela e quando a via, já começava a chamar emocionada com o reencontro, Outra não consegue ser deixada pra trás e se isso acontece chora em desespero. Os sons similares de suas bocas se confundem aos leigos, aos que pouco sabem sobre as irmãs. Mas a mãe as entende, a mãe ainda escuta o chamado de Uma na janela, a mãe ainda sente o gemido de dor e ainda vê o suspiro profundo.

A mãe ainda sente o aconchego e o calor, mesmo que seja através da Outra. A mãe ainda é a única que vê Uma e acaricia Outra. Os nomes se confundem em um intenso ballet de palavras quando a mãe chama, e elas reconhecem e atendem. Uma atende a mãe pelos ares, pelas folhas balançando nas árvores, pelo cheiro das flores. Outra atende a mãe pelo chão, com prontidão, com um farfalhar físico. Enquanto comem, a mãe as observa. A Outra come com avidez e Uma comia devagar. Devagar como o passar do tempo, desde aquele outubro. Outubro levou Uma e novembro trouxe Outra. Duas irmãs, idênticas, amadas da mesma maneira, que nunca na terra, irão se encontrar.

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