The death bird
A morte é como aquele vizinho que você não gosta! Você começa a fazer coisas absurdas para evitar o encontro. Se esconde no carro até ele sair de vista, muda seus horários para não trombarem, acumula o lixo na garagem e só retira quando tem certeza que o vizinho já dormiu. Você desvia dos caminhos que sabe que ele anda, se protege de seu bom dia ou boa noite, exatamente como se protege da morte.
Mas assim como o vizinho, mais cedo ou mais tarde, vocês se encontrarão e mesmo que seja aqueles encontrões onde os dois se assustam, um dia ele acontecerá com toda certeza. Aliás, como muitos dizem por aí: esse encontro (com o vizinho) é nossa única certeza.
Se realmente é nossa certeza, por qual motivo que ele acontece em momentos indesejados? E se eu tenho essa certeza, o meu medo é que a certeza se concretize no exato momento que não deveria ter acontecido.
Se hoje eu publico esse texto e morro amanhã, como saberei quem leu? Se mês que vem eu não assistir as olimpíadas de Tokyo, como torcerei por meus atletas preferidos? Se eu parar de acompanhar as novelas agora, que final elas terão? Se eu soubesse que 2018 era minha última copa do mundo, que valor eu teria dado para ela? Se o kinder ovo que acabei de comer foi o último, será que aproveitei cada nuance de sabor da parte branca e da parte preta? E que tal se eu tivesse ido na manifestação que eu queria, mas não fui por medo de ver o vizinho lá?
O encontro, inevitável, vem nas horas que a gente queria evitar. Me atordoa pensar em tudo que eu deveria ter dito, feito, escrito. Das danças que não dançarei, dos beijos e abraços que ficaram para trás, de hoje estar contemplando o céu enquanto escrevo e amanhã todos dizendo que estou lá ao invés de somente contemplar. Mas o que é esse céu senão uma rede de infinitas coisas interrompidas?
Me preocupo se pagarão meus boletos, não quero sujar meu nome, nem mesmo depois que meu nome vire somente uma lembrança ou um escrito em letras de bronze. Quem usará meu spotify? Para onde irão meus livros? Jogarão fora os quadros horrorosos que pintei? Alimentarão meu gato? Falarão coisas boas ao meu respeito? Contarão a minha filha que escolhi o nome dela muito antes dela nascer e que graças a Jane Austen e depois Rachel e Ross, ela se chama Emma.
Minhas piadas, meus olhares, meus comentários, meu carrinho virtual cheio de produtos da China, produtos esses que nunca deixei de mencionar o quão útil são e que os chineses pensam em tudo! Obrigada Senhor pela inteligência chinesa.
Lembrando de conversas muito recentes com um amigo da família, recém falecido, me ocorreu que prometemos uma visita que nunca acontecerá, brigamos por política no público e fizemos as pazes em segredo, inbox. De repente, pensei nos implantes dentários que ele fez, todos perdidos! Lembrei que preciso arrancar os sisos, e me ocorreu: e se eu fizer isso e logo depois perceber que foi um sacrifício em vão? Tem diferença ter ou não os dentes do siso, nesse contexto do desaparecimento?
O encontro com o vizinho se dará, mais cedo ou mais tarde você vai ter que olhar no olho dele. Pode ser que você chore, pode ser que você acredite estar pronto, pode ser que você sinta alívio, pode ser que você nem se dê conta. Porém, naquele momento, o momento que se der o encontro, tudo para, acaba e você nunca saberá se o Palmeiras finalmente, ganhou o mundial...
(texto de 2021)
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