The space between...
Belinha, sentada na janela de um café olhava lá fora a movimentação de meia dúzia de pessoas fantasiadas de palhaços vendendo flores para o dia internacional das mulheres. Ela, segurando com força a xícara de chá, pensava na ironia das pequenas coisas. Lembrou do dia que terminou de ler o livro de Stieg Larsson e pensou se existiriam homens que realmente não amavam as mulheres?! E analisando com frieza suas relações interpessoais e nem tão pessoais assim, sorriu amargamente assentindo pra si mesma que sim! Suspirou.
Belinha não era dessas de ficar procurando briga, mas quando achava uma que lhe valesse a pena, entrava, e era exatamente isso que a deixava nervosa, a resposta que tinha dado a uma amiga na rede social! Mas naquele momento o ímpeto de gritar ao mundo que as coisas estão um pouco difíceis se fez necessária!Quando alguém te parabeniza por pensar como "homem", isso não é elogio! Quando seu esposo chega em casa, tão cansado quanto você e te exige o jantar e que você mantenha os meninos em ordem, pois ele está com dor de cabeça, isso não é a ordem natural das coisas! Quando alguém te diz que você mereceu ser estuprada pela profundidade de seu decote, não é consolo que se aceite! Se nas reuniões com amigos, as mulheres vão para a cozinha e os homens para onde quiserem, isso não é diversão justa!
Todos esses pensamentos angustiavam Belinha de forma que ela teve vontade responder à amiga que julgava todos os argumentos como mimimi e ela se perguntou mil vezes, qual o planeta que a criatura vivia?! Belinha sabia que tinha sido hostil, mas também sabia que a realidade é um pouco mais cruel e ela se estende por vários territórios que vão além da casa da dona de casa simplória, sem instrução e sem perspectiva além de cuidar de todo mundo e de se perder no meio dos cuidados que nunca recebe de volta. Ou da dona de casa por opção e instrução, que adora o que faz, mas também precisa de cuidados. A realidade bate a porta da mulher que trabalha fora e tem uma vida com todos os elementos da vida das dona de casa e algo mais, e também esperam por cuidado!
Homens e mulheres, tão diferentes e tão iguais, no fundo todos buscam a mesma coisa, um pouco mais de cuidado! Se todos procuramos a mesma coisa, por que somente uma parte de nós, os homens, recebem? Mais um suspiro e Belinha lembrou do episódio em que seu marido tentou o suicídio* naquele momento, enquanto esperava a lavagem gástrica dele no hospital Belinha pensava se ela havia sido negligente com ele, se deveria ter lavado a louça mais vezes, se estava trabalhando demais, se estava privando o coitado de cuidados, mas que chegava tão exausta ás vezes que tomar banho acordada era luxo e ele já estava em casa esperando que ela fizesse o jantar!
Ela não tinha culpa de nada! Os dois estavam sendo submetidos as mesmas provas e cada um reagiu de uma forma diferente, pois as provas impostas a Felício eram atenuadas por uma sociedade que o ampara em suas deficiências, que perdoa suas falhas, que justifica seus rompantes, que guarda suas violências, que entende seu cansaço, que abraça sua necessidade de se impor diante de seres humanos que precisam da mesma coisa, mas a sociedade vira as costas, esconde com maquiagem, não conta pra ninguém, coloca a culpa, desvaloriza o choro, acusa, reprime, repreende, dedos e dedos são apontados na cara, na carne.
"Seu marido está sendo tratado Belinha, mas não vá você tomar os comprimidos restantes, por favor!" Disse lhe a sogra! Se Belinha fizesse isso, seria a problemática, sorumbática. Todos diriam diante do corpo: sempre soube que isso se daria!
Lembram do dia que ela chorou quando rimos do cabelo dela?
Aposto que se matou porque estava gorda, engordou 7 kg depois que teve o filho e pra sempre ficou assim!
Belinha riu diante do último pensamento! Ela mesma se cobrava esses 7 kg!
Lá fora, começou a chover e os palhaços em um grande alvoroço, juntavam as flores, Belinha saiu do café, rindo da cena dos palhaços entre vento, água e rosas! Resolveu caminhar na chuva até a livraria mais próxima e se deu de presente o que mais adorava comprar!
Pensou antes de atravessar a rua, que gostaria que as meninas que olhavam curiosas da janela de um ônibus escolar, não precisassem brigar nas redes sociais ou em seus lares, trabalhos, ruas, só porque gostariam de ser tratadas da mesma forma que o mundo orgulhosamente tratava os meninos que se esmurravam no fundo do mesmo ônibus...
* ver o conto "a carta do suicida" nesse mesmo blog.
** o texto mescla diversas pessoas e suas experiências, não tendo caráter autobiográfico.
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