O Homem que não sabia fazer parar de chover

 Joe olhou pela janela e percebeu que chovia. Chovia mais do que ele desejava que chovesse, mas não bastava isso, chovia e fazia um imenso frio e ele, na sua angústia rotineira, pensou: Por que será?

Sentado ali, tomando a horas a mesma coisa, já nem sabia se inicialmente tinha sido quente ou frio, mas também nem queria saber, tudo o que Joe pensava era: por que será?
A chuva e o vento se intensificavam, e os dedos gelados dele tocaram sua testa, sentiu um calafrio, percebeu que seus dedos gelados estavam sendo a representação de seu coração. Frio, muito frio, quase tão frio, que ninguém habitava ali, somente aqueles que mais resistentes eram. Sua mãe, seu pai, dois irmãos e só. O coração de Joe, era uma Antártida dentro do seu corpo, onde alguns corajosos desbravadores, insistiam em permanecer.
Ele suspirou, pela milésima vez, uma dor o acometeu, nem sabia onde doía mais, Joe estava ilhado, ilhado na própria angústia desesperada de não sabe como esquentar os dedos, de não saber fazer parar de chover. Mas oras, até uma música se iniciava com uma pergunta parecida, e ele lutava para lembrar se na mesma música havia uma resposta.
A música nem a vida de Joseph tinham respostas, era tudo vazio, de respostas ou explicações. Decidiu se levantar, mas ao contrário da decisão, permaneceu sentado. Ele começou a pensar nas inúmeras doenças da vida humana, e viu que nunca tinha visto alguém chegar ao lado do leito do moribundo e exclamar: oras, levante-se, reaja, o que é afinal, ser acometido por um câncer no pâncreas?
Ou até mesmo, nunca tinha visto ou ouvido o seguinte comentário: fulana tem lepra, vê se é motivo para estar com aquela cara de tristeza? Ao invés de pensar nas crianças morrendo na África.
- Atchim!!!
 - Tá com gripe?
- Sim!
 - Toma vergonha nessa cara, toma um banho e viva! Você tem dois filhos pra criar.
Joe até sorriu, pareciam estapafúrdias essas reações, mas ele as sentia na pele! Não, ele não estava com câncer, nem lepra, muito menos gripe! Ele estava depressivo, cansado, triste, com medo. Já lhe doíam as juntas, a cabeça, a alma. Mas tudo que faziam eram mandar-lhe mensagens de encorajamento!!! Levante-se homem! Coma mais! Escove os dentes! Reaja! Faça uma faxina, jogar fora coisas vai te fazer bem! É por isso que ninguém te visita, vive com essa cara!
Joe agradecia e chorava escondido. Sorria amarelo quando lhe acusavam de ser egoísta, sorumbático, asmático, triste, intenso, confuso, sozinho...
Por que será que esperam que eu encha de feridas até me ajudarem? Ele pensava com tristeza, ainda olhando a janela. Ouviu alguém gritar-lhe lá da cozinha: Joseph? Levanta daí, venha lavar a louça, olha quanta roupa pra lavar, quer me ajudar? Ou melhor, faça sozinho, vai te fazer bem.
Joe, riu, riu alto, gargalhou, feito um louco, lunático, excêntrico! Riu tanto que chorou, chorou compulsivamente, feito criança, jogou - se no chão, quebrou-se a xícara, espalhou-se ele e a bebida pelo tapete!
Oras, a chuva lá fora, se ao menos pudesse correr, se ao menos pudesse se aquecer, no olhar daqueles que compreendem sua dor! Mas não havia quem o compreendesse, havia os que tem certa compaixão, mas não havia os que compreendessem! Joseph fechou os olhos e pensou que talvez estivessem certos, ele precisava levantar dali. E foi o que fez, levantou, ligou o rádio, "learning to fly" do Pink Floyd, sentiu esquentar o coração, decidiu que voaria para longe, que essa depressão não seria sua nunca mais e seria uma águia em dia de sol, estava aí a resposta, voar, voar para longe pararia a chuva!
Joe abriu a janela, ficou de pé no batente, abriu os braços e pulou!
Caiu com tudo na grama molhada, com dois ou três a olhar com dó! Sorrindo debilmente levantou-se, descobriu que ele era definitivamente o homem que não sabia fazer parar de chover...
Ele precisava de ajuda, de calor, de abraço, e de alguém que lhe dissesse: eu te entendo, agora deita aqui ao meu lado e vamos conversar. Do que você mais gosta?
Isso não acontecia, por que será?


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