She used to...

 Ela costumava sentar naquele mesmo café, com o mesmo tipo de literatura, todos os sábados pela manhã, depois de ir caminhando dois quarteirões, com seu meio sorriso, um pouco simpatia, um pouco receio, um tanto sem perceber. Cumprimentou dois ou três, nunca saberia os nomes, mas faziam parte de sua vida, vida essa que naquele dia, por um motivo ou outro, parou para pensar. Foi quando uma mãe de duas crianças pequenas tentava atarentada atravessar a rua em segurança. Lane observava atenta, esperando o desfecho da aventura quando algo lhe veio à mente, nunca tinha passado por isso! Sua vida foi tão bem construída na segurança utópica de seu universo. Casou-se cedo, na época em que muitos experimentavam a turbulência da juventude, do desapego emocional, das festas intermináveis, Lane estava segura em um teto que praticamente podia chamar de seu com alguém que definitivamente lhe pertencia, e toda aquela parte da dúvida estava fora de seu alcance. Assim como uma vida a dois lhe ocorreu cedo, a vida a três veio junto, sem dar margem para o pensamento do SE... Ela era a parte atípica de uma realidade. Com esse pensamento inicial, Lane concluiu que vivia em uma bolha!


Todos os dias ela acordava as 6:30, acordava sua filha, tomavam o desjejum, trocavam de roupa, pegavam o ônibus da escola de elite a qual trabalhava e sua filha estudava, na porta de sua casa. Casa que estava em uma vila militar, altamente protegida pelo maravilhoso MINISTÉRIO DA AERONÁUTICA. Estava inserida em um meio em que a pobreza não fazia parte, em que a insegurança só acontecia no bairro vizinho, que a tristeza não era percebida, fazia parte daquele mundo que muitos não sabem que existe, e se deu conta disso, percebeu a tempo, oras bolas, a tempo do que especificamente? Lane sentiu um arrepio, parecia frio, mas foi medo, medo de não ter medo, medo de talvez estar passando despercebida, medo do egoísmo que invadia sua alma, medo do vasto medo humano. Ela não fumava, mas acendeu um cigarro, pois sempre achou que quem fuma nunca está só, e era assim que se sentia naquele exato momento, breve período de tempo em que sua vida passou-lhe na frente e nem precisou morrer para que isso acontecesse, e isso a encheu de pavor, pois se a vida já lhe era apresentada nesse formato antes dos trinta, o que lhe aconteceria quando chegasse o momento final? Tentou desesperadamente formular uma saída, uma forma de mudar pelo menos uma vírgula dessa história tão bem articulada pelo destino, mas não conseguia! Pediu um conhaque ao invés do tradicional cappuccino com creme, piscou atônita diante de tamanho impasse em que se colocara! Sentia que precisava de uma solução, mas nem ao menos sabia por onde começar! Decidiu que ia viajar, sim, essa era a saída perfeita, conhecer novos mundos, novas realidades, vidas diferentes, lugares, idiomas, comida! A ideia brilhou em seu olhar, caiu-lhe bem. Jogou o cigarro mal fumado no chão, bebeu em um gole só o conhaque e saiu decidida, a passos largos, sorrindo verdadeiramente dessa vez, sentiu o vento, o sol, a fumaça dos carros, o barulho das pessoas, sorveu tudo aquilo pela primeira vez, Lane acabara de nascer, pensou. Vou viver como nunca, vou viver intensamente, aproveitar cada segundo! Como é mesmo aquela música do Titãs? Farei jus a tudo aquilo, minha lápide quando eu morrer, terá somente DUAS palavras: INTENSIDADE E FELICIDADE! Serei um poema, serei, serei e serei...

Subiu os degraus do prédio de dois em dois, nem quis saber de elevador, a empolgação estava demasiadamente a flor da pele, queria contar a família que estavam de partida, iriam para Timbuktu, Katmandu, Honolulu! Vamos se ajeitem, façam as malas, nós três partiremos amanhã as 4:00! Irrompeu porta adentro, jogou as chaves de lado, chamou Vinci, Christie, onde estavam?

Na sala, estavam na sala. Christie tinha lágrimas e Vinci segurava um manifesto azul, típico das forças armadas! Ambos com aquelas caras que não queremos nunca ver, ela se forçou a ficar séria, e sua seriedade pareceu soar como uma pergunta que foi respondida logo em seguida. O país estava em guerra e a vida ia sim mudar, mas o rumo, esse ninguém poderia prever, somente o meio, sim, o meio era previsível: não vamos viajar! Lane suspirou, sentou devagar no sofá, colocou a mão no rosto e pensou o que será que tinha acontecido com aquela mãe e duas criancinhas que estavam atravessando a rua?

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