O início

 No início era um gato e um menininho. 

Quando aquela bolinha de pêlos brancos chegou, Heitor o pegou com cuidado e aninhou em seus braços, deixando o bichinho se sentir confortável, e foi aquele cheirinho e aquele pelinho fazendo cócegas no nariz, que o fez rir com alegria, que o fez sentir amor. Ao mesmo tempo que essa cena acontecia com o menino, com o gatinho o sentimento era diferente, porém com o mesmo sentido! A bolinha peluda, fechou os olhinhos e se encolheu nos braços do menino, e do seu jeitinho, lançou todo seu amor e alegria em forma de um doce ronronar. O som da risada de Heitor, trouxe doçura e alívio para o bichano, o ronronar de Lion, trouxe alívio e doçura para o humano. A partir daí, os dois, trocaram olhares e se acomodaram na vida um do outro.

Heitor, era uma criatura cheia de talentos, e dois de seus maiores talentos era a sensibilidade e a música. Ele tocava violino e por muito tempo, até essa música sair afinada, ela parecia um miado e miando ele seguia tentando. Lion, deitado na cadeira o observava maravilhado, para ele, o amigo estava se comunicando com ele e assim ele respondia, miaaaaaaando alto. Numa tarde chuvosa, os dois eram capazes de enlouquecer a mãe com esse diálogo. 

O tempo foi passando, e não teve mais fotografias de um, sem o outro. Não teve manhã ou noite em que um não buscasse o outro. As brincadeiras enchiam a casa de fofura, se Heitor estivesse triste, Lion se deitava ao lado dele, ou amassava pãozinho em suas costas, ou ainda, ronronava com todas as suas forças, pois ele acreditava poder curar aquele coração de todo o mal, e talvez, ele pudesse mesmo. 

O tempo foi passando. Os aniversários de Heitor foram se modificando, o som do violino foi ficando mais agudo e mais afinado.

Os anos foram passando com intensidade e as emoções foram ficando confusas, estranhas! De repente, no meio de tudo, ninguém sabia o que dizer ou como dizer e as distâncias foram se abrindo como abismos, mas havia uma ponte, a ponte era Lion, o gato nunca deixou que as emoções afloradas o deixassem atingir, e ele ali, confortava a todos.

De um junho para outro, as confusões ficavam cada vez mais aparentes. E a mãe, não sabendo como lidar com tudo isso, ás vezes se sentava com Lion no colo e enquanto acariciava aquele pêlo macio, conversava com ele, e embora ele soubesse as respostas que ela buscava, ele não sabia falar humanês, nisso, ele fitava seus olhos azuis com toda intensidade do seu afeto.

Nada naquela casa era mais forte do que os sentimentos profundos que nutriam um pelos outros, mas as metamorfoses foram se intensificando, Lion, fiel companheiro de Heitor, notava o que estava diferente, entretanto o amor e companheirismo dos dois, nunca, nunca mudava. E no meio de tanta turbulência em suas emoções, e de tudo que parecia extremamente incerto, o que era constante no meio de tudo e de todos era Lion. Aquilo nem era mais só um gato, era um coração macio, branquinho e pulsante emanando a paz que todo mundo precisava.

Heitor crescia aos olhos de todos, e como uma lagarta, foi se transformando através dos anos. Já não sentia mais que era tão Heitor, mas olhava com desconfiança pra quem seu corpo e sua mente dizia ser. Num universo como o nosso, nem sempre sair de um casulo e mostrar ao mundo quem você é de verdade, é fácil. Como todos entenderiam? Lion se entrelaçava entre as pernas de seu amor, o gato entendia.

Doze subidas e descidas do bichano, nas ruas empoeiradas e lindas da vida, Heitor já não era mais, Heitor sentiu o gritar de sua alma, e dali começou a se desenhar, o esboço perfeito de um futuro em que as fotos, se não fossem pela presença de Lion, nem pareceria que eram suas. Aos poucos e constante, a lagartinha tímida, começou a saber que tinha asas, ter consciência da presença delas em seu corpo. E com isso, Doze meses se passaram.

Junho de novo. Lion suspirou, aquele suspirinho de gato! Agora ele tem 13 anos. 68 se fosse humano. Estava cansadinho, um pouco esquecido, mais quieto e contemplativo. Foi assim que ele soube, enquanto contemplava, que uma nova vida chegara! Ele esteve ali, por 13 anos, pra ele, era como se ele tivesse sido o casulo que amparou, ninou, acolheu e amou Camille, por todos esses 13 anos. E agora, sentindo que seu trabalho estava completo e que Camille estava pronta pra SER e EXISTIR, Lion ronronou pela última vez. Ele morreu para que Camille pudesse nascer. 

E naquele 29 de junho, o milagre se fez. E o bichinho peludo e fofo, no mundo espiritual dos bichinhos peludos e fofos, sorri, se enrola e dorme quentinho.



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