En el muelle de San Blas
Quem de nós em sã consciência, gostaria de ir ao Panamá? Ninguém, NINGUÉM, nin-guém!
Era o que Isabel ficava repetindo para si mesma! No fundo ela queria se convencer de que nem ela, nem qualquer outro ser vivente na terra, teria interesse em ficar uma semana no Panamá com tudo pago. Afinal, quem é que precisa de pechinchas na vida? Tudo que vem fácil, vai fácil. Quando a esmola é demais o santo desconfia. Conquistar é melhor do que ganhar. E assim foi, uma enxurrada de clichês para tirar a sensação de ser idiota do peito. Até que ali, deitada olhando pro teto limpo de seu quarto, Isabel se rendeu ao óbvio. Ela chorou.
Não chorou copiosamente, ela não é disso. Mesmo assim era choro. Tentou justificar pra si mesma que aquele era um choro justo diante da injustiça, duas lágrimas tristes na tristeza, um falso consolo para os desconsolados. Quando Isabel era pequena e se sentia assim, ela chupava limões, e hoje pensando bem sobre esse detalhe, atentou de que deve ser por isso que limão é uma de suas frutas favoritas, de tantos infortúnios, acostumou-se com o sabor ácido, acabou sendo ácida ela mesma e através dos anos, desenvolveu-se irônica e sarcástica ao extremo, já lhe disseram que deveria abrandar, e ela até pensou na hipótese, porém, ao lembrar do Panamá, Isabel só tem uma coisa a dizer: MUDAREI COISA NENHUMA!
Ainda deitada olhando o teto limpo, Isabel tentava encontrar máculas insolúveis, daquelas que esponja nenhuma daria jeito, máculas essas que não estivessem em sua vida, mas na vida dos outros, pois assim ficava fácil esquecer do próprio sofrimento! Ao invés de pensar nas queimadas que assolam o seu país e dos inúmeros prejuízos, físicos, psicológicos e morais que tais eventos traziam, ela desviou o pensamento e logo começou a fazer um paralelo de si mesma com o poema de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), lembrou ali do poema inteiro, declamando baixinho de repente exasperou-se nessa parte:
"Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"...
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