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Mostrando postagens de agosto, 2023

The death bird

 A morte é como aquele vizinho que você não gosta! Você começa a fazer coisas absurdas para evitar o encontro. Se esconde no carro até ele sair de vista, muda seus horários para não trombarem, acumula o lixo na garagem e só retira quando tem certeza que o vizinho já dormiu. Você desvia dos caminhos que sabe que ele anda, se protege de seu bom dia ou boa noite, exatamente como se protege da morte. Mas assim como o vizinho, mais cedo ou mais tarde, vocês se encontrarão e mesmo que seja aqueles encontrões onde os dois se assustam, um dia ele acontecerá com toda certeza. Aliás, como muitos dizem por aí: esse encontro (com o vizinho) é nossa única certeza. Se realmente é nossa certeza, por qual motivo que ele acontece em momentos indesejados? E se eu tenho essa certeza, o meu medo é que a certeza se concretize no exato momento que não deveria ter acontecido. Se hoje eu publico esse texto e morro amanhã, como saberei quem leu? Se mês que vem eu não assistir as olimpíadas de Tokyo, como t...

The space between...

 Belinha, sentada na janela de um café olhava lá fora a movimentação de meia dúzia de pessoas fantasiadas de palhaços vendendo flores para o dia internacional das mulheres. Ela, segurando com força a xícara de chá, pensava na ironia das pequenas coisas. Lembrou do dia que terminou de ler o livro de Stieg Larsson e pensou se existiriam homens que realmente não amavam as mulheres?! E analisando com frieza suas relações interpessoais e nem tão pessoais assim, sorriu amargamente assentindo pra si mesma que sim! Suspirou. Belinha não era dessas de ficar procurando briga, mas quando achava uma que lhe valesse a pena, entrava, e era exatamente isso que a deixava nervosa, a resposta que tinha dado a uma amiga na rede social! Mas naquele momento o ímpeto de gritar ao mundo que as coisas estão um pouco difíceis se fez necessária! Quando alguém te parabeniza por pensar como "homem", isso não é elogio! Quando seu esposo chega em casa, tão cansado quanto você e te exige o jantar e que voc...

A Carta (essa não é uma história trágica)

 Pode- se dizer, assim meio que não querendo dizer, que o dia de hoje vem a ser o último de trinta e poucos. Há muito venho alimentando a ideia da despedida, não sabia se saía com festa ou se saía com choro, mas é chegada a hora e preciso partir. Apesar de estar resoluto, teimo em deixar tudo certo, nada por fazer. Não gosto de desorganizações, tão pouco de delegar minhas tarefas. Coisas minhas, coisas minhas e eu mesmo as faço! Por conta disso, passei no banco e saquei todo dinheiro que tinha e deixei na primeira gaveta da cozinha, junto com as facas, pois ouvi dizer que dinheiro com os garfos é mau agouro, risco de morte! Na volta pra casa, passei na lotérica, meu telefone, tv a cabo, água e luz estão pagos! O condomínio passei por debaixo da porta de dona Mariazinha, sem erro, dinheiro contado. Enviei todos os relatórios para o chefe, respondi todos os meus e-mails e mensagens, anunciei no facebook minha ausência, não expliquei pra ninguém. isso é coisa minha, há tempos eu venho...

Duas irmãs

  Eram duas irmãs! Uma veio para compartilhar o que era da Outra. Até aquela linda cama com dossel, o quarto com cortinas pesadas do outro lado do longo corredor, as escadarias geladas e os sons advindos das propriedades próximas. Elas compartilhavam o pai e a mãe, tinham a mesma casa, os mesmos brinquedos e geralmente gostavam das mesmas coisas. O que era muito engraçado! A bolinha preferida de Uma, acabava sendo a da Outra. Não eram gêmeas, mas eram idênticas! As cores, os formatos, os narizes! Mas não a personalidade! Isso nunca. Uma foi calma, apegada com a mãe, sempre muito limpa e ordeira, curiosidade na medida segura. Outra sempre agitada, desordeira e a curiosidade flertava com o perigo, com um certo apego com todos e simpatia que a irmã não tinha. Duas irmãs, morando nos mesmos corações e tetos. Uma gostava de esperar a mãe na janela e quando a via, já começava a chamar emocionada com o reencontro, Outra não consegue ser deixada pra trás e se isso acontece chora em desespe...